Seca no Norte, enchentes no Sul: Super El Niño provoca extremos opostos no Brasil 15 de setembro de 2026

O Brasil vive, neste momento, dois extremos climáticos opostos e simultâneos provocados pelo mesmo fenômeno. Enquanto a Região Norte enfrenta uma das secas mais severas dos últimos anos, com rios em níveis historicamente baixos, estados do Sul e do Sudeste registram chuvas excepcionais que já provocaram enchentes, deslizamentos e mortes. Por trás desse contraste está o El Niño 2026-2027, que segue ganhando força no Oceano Pacífico e caminha para se tornar um dos mais intensos já registrados na era moderna.
Um Super El Niño em formação Segundo boletim semanal da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), a anomalia de temperatura na região do Pacífico equatorial usada para medir oficialmente o fenômeno está em +2,9°C pelo índice tradicional (ONI) — patamar que já classifica o evento como muito forte, próximo do limite superior da escala. Um segundo indicador adotado neste ano pela agência americana, que ajusta o cálculo ao aquecimento geral dos oceanos tropicais, também apontou pela primeira vez neste episódio um valor de +2°C, classificado como Super El Niño. É a primeira vez, no evento atual, que os dois índices usados pela NOAA coincidem nessa classificação — algo que não se repetia desde fevereiro deste ano, quando o fenômeno anterior, de 2015-2016, havia atingido o mesmo patamar.
Seca avança sobre a Amazônia No Norte do país, a escassez de chuva já compromete rios, abastecimento de água e o cotidiano de comunidades ribeirinhas. Em Roraima, o Rio Branco atingiu, em agosto, seu menor nível já registrado para o mês na estação de Boa Vista, enquanto em Caracaraí a régua marcou um volume muito abaixo da média histórica. A situação levou o governo estadual a decretar emergência por 180 dias e a montar um gabinete de coordenação para enfrentar os efeitos da estiagem, com medidas como reforço de brigadas de incêndio e abertura emergencial de poços.
No Amapá, o baixo nível dos rios e o acúmulo de sedimentos têm dificultado a navegação no arquipélago do Bailique, isolando comunidades ribeirinhas e afetando o transporte escolar e o acesso a medicamentos e serviços de saúde. No Amazonas, o cenário se repete: a dificuldade de navegação compromete o deslocamento de pacientes, profissionais de saúde e suprimentos básicos para áreas rurais.
A seca também ameaça a fauna amazônica. Episódios anteriores de estiagem extrema já provocaram mortandade significativa de botos e peixes em lagos da região, quando a temperatura da água chegou a níveis críticos. Para tentar evitar que isso se repita, pesquisadores passaram a monitorar temperatura e oxigenação da água em lagos considerados mais vulneráveis, na tentativa de agir a tempo de resgatar animais.
Chuva em excesso castiga o Sul e o Sudeste Enquanto o Norte seca, o cenário se inverte no Sul e no Sudeste do país. Paraná e São Paulo concentram os efeitos mais graves de uma sequência de chuvas volumosas que já deixaram mortos, desabrigados e prejuízos em rodovias e áreas urbanas, embora Santa Catarina e o Rio Grande do Sul também tenham registrado elevação de rios e transtornos.
Em São Paulo, as chuvas da última semana já causaram mortes e forçaram moradores do Vale do Ribeira a deixar suas casas, com ruas alagadas em municípios como Eldorado. No Paraná, há mortes confirmadas e desaparecidos, com dezenas de municípios afetados e milhares de pessoas atingidas; deslizamentos e queda de barreiras causaram danos a rodovias, incluindo a interrupção total de um trecho da BR-476 em Adrianópolis. Em Santa Catarina, a cheia do Rio Iguaçu obrigou a criação de abrigos em escolas de Porto União, enquanto no Rio Grande do Sul o Rio Uruguai ultrapassou a cota de inundação em São Borja, com a cheia avançando para outras cidades da fronteira.
Extremos devem se intensificar até o fim do ano Modelos climáticos indicam que o pico do fenômeno deve ocorrer entre novembro e dezembro, o que tende a agravar ainda mais os contrastes já observados. Projeções do modelo europeu SEAS-5, do Centro Meteorológico Europeu (ECMWF), mostram chuva abaixo do normal se mantendo sobre a Região Norte e parte do Mato Grosso até o fim do ano — mesmo com o início do período chuvoso amazônico —, enquanto no Sul, no Mato Grosso do Sul e em boa parte do Sudeste a tendência é de chuva muito acima da média, com destaque para Paraná, Santa Catarina e São Paulo.
Esse padrão mais instável também deve favorecer temporais fortes a severos nessas regiões nos últimos meses do ano, com risco elevado de raios, granizo, vendavais e, em alguns casos, tornados.
Créditos: informações e dados originalmente publicados pelos meteorologistas Estael Sias e Luiz F. Nachtigall, no site MetSul Meteorologia (metsul.com).
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